Hoje, segunda-feira, é que consigo lembrar com mais clareza o que realmente aconteceu na madrugada de sexta passada.
Depois do convite de Mét Green para irmos numa festa junto com seu namorado e duas amigas, eu, Art Davis, que sou bastante avesso à festas, pensei: “Caramba, se essa chuva não der trégua eu não vou.” Porém, as palavras insistentes de Mét me deixaram curioso tanto a respeito do lugar quanto da música que seria tocada por seus amigos músicos: um rock crounch, que por acaso não sei o que significa.
E chuvia. Na verdade, o céu se desfazia em gotas d’água e ventos de mais de 100 km/h: acreditem, era um ciclone extratropical que sacudia o clima da capital gaúcha e redondezas. Sob um céu negro de tantas nuvens, qualquer pessoa sã preferiria ficar em casa debaixo das cobertas, protegido do frio, mas nós não! Qual seria a graça? Que histórias dos tempos inconseqüentes de juventude contaríamos aos nossos filhos?!
Saímos. Lembro bem que fui com uma calça preta, uma camiseta e um casaco de couro que gosto de usar pouco, pra não gastar. Fiquei com um visual bem anos 60, quase final dos 50, meio estilo James Dean. Vou ser bem sincero, não lembro a roupa que as outras pessoas estavam usando: não sou tão detalhista assim.
Chegamos. O lugar se chama Laika e é um local pequeno, freqüentado, na maioria, por amigos do DJ ou dos músicos da banda, que era o nosso caso.
Começamos a beber. Cara, se soubéssemos como terminaríamos a noite não teríamos tanta sede. Logo de entrada já fomos pedindo uma cerveja long neck, uma caipirinha e uma cuba libre e cada um foi bebendo um pouco do drinque do outro. Enquanto isso, tocava algumas músicas que me lembravam muito o punk, ás vezes um Nirvana ou algo mais gritado, mas o que eu entendo de rock?
As pessoas foram chegando. Aos poucos o público começava a se formar e o pequeno espaço a se lotar. Então, de repente e não mais que de repente, chegam os amigos de Mét que iriam tocar naquela noite junto com outras duas bandas, como se fosse um pequeno festival.
Logo depois de chegarem, tomarem algumas bebidas e se aquecerem, os músicos da Tom Enola se posicionaram no palco: um canto reservado com a bateria, alguns amplificadores e uma mesa de som básica no canto esquerdo ao fundo. O público percebeu a movimentação e já se moveu em volta do palco. Eu fiquei bem à direita, do lado de um amplificador.
Começa o primeiro show. O ritmo que começa lentamente é quase um suspense para os ouvintes que esperam a canção alçar vôo. Quando realmente começa, a primeira mensagem que corre no meu cérebro é a de que a noite finalmente havia começado e não tinha absolutamente nada com que me preocupar, nada mesmo. Foi estranhamente incrível, uma pequena sensação atemporal de liberdade, como se o pedaço de mundo que não estava lá estivesse mais vagaroso. Eu olhava cada movimento que eles faziam, cada troca de acorde na guitarra, cada mudança de nota no baixo: era tudo tão fácil, tão ao vivo!
Depois de algumas canções fui até o banheiro e percebi algo até então inédito na minha vida: eu estava surdo do ouvido direito! Nem o habitual zumbido se manifestava do lado direito da minha cabeça! Isso foi meio assustador, mas tive minha cota de culpa: pô, do lado do amplificador! A parte mais engraçada da noite se deu quando Mét gritava algo o mais alto possível e eu não distinguia nada, como se um vácuo entre meu ouvido e sua garganta, impossível sair algum som dali. Hehehehe, até lembrando é engraçado....
A noite continuou. Bebi mais, me diverti mais e ouvi menos. Quando a segunda banda entrou me posicionei perto do palco (não como antes, óbvio) para absorver a arte de tocar entre amigos. É isso que mais gosto num show, o espírito de irmandade entre os artistas, a troca de olhares, a energia fluindo das mãos e das vozes, uma coisa que somente a música pede e devolve: entusiasmo. Não é à toa que prefiro gravações ao vivo.
A última formação comparece ao púlpito musical. Desculpe-me, mas não me recordo tão fielmente sobre a música e como me senti em relação a ela, estava mais preocupado com o barato que o álcool consumido em doses ‘razoavéis mas saudáveis’ proporciona. Não era enjôo nem dor de cabeça, pelo contrário, uma sensação de falta de gravidade, de pensamento e corpos livres, uma ausência de libido deliciosa. Calma, não sou de dar vexame, vocês não ouvirão fofocas sobre meu comportamento exemplar.
O baterista cansado se levanta. Eram quase 4h da manhã e já nos apressávamos em sair antes que todos tivessem a mesma idéia e tudo se congestionasse. Pagamos rapidamente e enfrentamos a chuva que não pensava em cessar tão cedo. Corremos algumas quadras pulando poças e cuidando para não cair nada do bolso durante a prova de obstáculos. Ao chegarmos no estacionamento entramos no carro e tentamos não desmaiar ou vomitar dentro no carpete do Thiago. Já que a bebida não podia ficar sozinha na barriga fomos ao McDonalds mais próximo, o da Silva Só. Viu, você pode visitar os lugares que fizeram parte da história!
Como sou contra o fast-food produzido no McDonalds, não comi nada... ok, algumas batatinhas fritas, mas foi só, continuo firme às minhas convicções!
Conversa vai, hambúrgueres vêm e estávamos alimentados. Ao olhar para fora, a janela embaçada e as árvores querendo se libertar do chão nos motivaram a matar algum tempo ali dentro, onde era quentinho e tinha mais comida.
A luz cai. Algumas pessoas presentes reclamam, já os funcionários comemoram, afinal, não dá pra trabalhar sem energia. Festejam bem pouco com a luz voltando 40 segundos depois. As exclamações se invertem. A chuva parece diminuir e vamos correndo de volta pro carro.
Um obstáculo: uma árvore caída há alguns metros. Mét, que é uma mulher corajosa e independente disse:
- Ah, não vou fazer a volta.
Pensei “ué, por que não?” Então ela humilha:
- Deixa que eu tiro do meio da rua.
Minha reação foi de espanto, será que ela iria conseguir?!
Acreditem, conseguiu. Thiago deu uma mão, é verdade, mas a iniciativa de Mét foi no mínimo inesperada e muito eficaz: o caminho ficou menor.
Graças à carona, cheguei são e salvo. Despedi-me de todos no carro e fui lentamente andando até minha cama... quer dizer, meu apartamento. A rua estava deserta e caía uma garoa fina, lá pelas 5h de sexta pra sábado. Tirando a roupa molhada e fedendo a cigarro, caí no colchão com uma leve dor de cabeça e enjôo. Todos as grandes noites vem com grandes e satisfeitas olheiras no dia seguinte.