domingo, 13 de abril de 2008

A Última Boneca Russa

Há menos de uma hora vi um filme que tenta explicar o amor. Claro, não conseguiu plenamente, mas esclareceu muitos pontos a respeito do convívio entre as pessoas que se amam, o quanto o amor é esmagador no cotidiano.

Bonecas Russas (Lês Poupées Russes, 2005) começa com o personagem principal, Xavier (se pronuncia Raviér), num trem, escrevendo no laptop suas histórias e aventuras amorosas até então. Antes mesmo de uma linha ser escrita, a bateria acaba e ele se vê obrigado a procurar uma fonte de energia: o lugar mais próximo é a tomada do banheiro. Sentado em cima do vaso e com o computador apoiado nos joelhos, ele começa contando o instante mais revelador, o seu nirvana dos relacionamentos.

Claro que não irei contá-lo aqui, até porque ficaria infantil e fora de contexto, mas ao longo da trama, que serve de introdução a essa lembrança, o peso e a necessidade de ostentar para o mundo que estamos bem e felizes é sufocante: a paixão deve ser obrigatória a todos, queiram eles ou não. O núcleo que mais expressa isso é a da relação de Xavier com seu avô, que insiste em conhecer a namorada (que não existe) do neto. Se não tivermos momentos mágicos para nos vangloriar aos outros passamos uma idéia de ‘pagão afetivo’, como se fôssemos marinheiros ninfomaníacos!

As várias mulheres que lhe proporcionaram sexo e pequenas doses de carinho (não amor, com exceção da última) somente trouxeram frustração ao pobre discernimento do anti-herói: uma ex o suportava por medo de ficar sozinha; a segunda e a terceira eram só beleza: rosto e corpo incríveis (tenho que concordar), mas é só. Um dos melhores momentos do filme é quando a mulher com quem está saindo vê a ex dele saindo de sua casa: a discussão que se segue mostra o quanto as mulheres são especialistas em confundir a cabeça do homem com suas próprias palavras. Apesar de ser pisado por essas mulheres, Xavier não guarda suas palavras para si: fala com sinceridade e com certa arrogância, sem pensar no que virá. Enfim, só se enrola mais, porém desanuvia a raiva.

Outro fator que traduz a incompatibilidade entre os dois sexos é a língua: três idiomas são falados por diferentes personagens durante a trama, são eles o russo, o francês e o inglês. Isso contribui para o esforço de ambos os lados chegarem a um entendimento mútuo e então poderem se amar (ou brigar). O fato de Xavier ter que viajar diversas de Paris a Londres e vice-versa, tanto a trabalho como pra a infidelidade, servem como metáfora, um modo simples de mostrar o cotidiano impedindo um contato mais próximo entre os amigos ou amantes. Os diferentes níveis de intimidade dos personagens sejam ingleses, franceses ou russos (sim, também há o núcleo russo) ditam os dilemas sentimentais clássicos e fúteis do amor “será que é ela a garota perfeita pra mim?”.

Ah… amour!....
Oh... love!…
Ah….любовь!...

Ao contrário do que o filme todo indica, o amor é possível! Na verdade, esse processo doloroso e exaustivo da procura do amor perfeito só nos ajuda a perceber que ela, a paixão, prevalece se investirmos nas pessoas certas e seguirmos o que o destino nos manda.

...

Hahahahahah!!! Não acredito que fiz vocês lerem isso!!! Um parágrafo como este só serve para provar que todos somos seres totalmente fracos e falíveis, que o destino pode e deve nos ajudar a qualquer custo! Isso é um absurdo em massa!
Ok, ok, as coisas podem dar certo, mas só através de muito esforço, de persistência. Nada cai do céu e se caiu está podre. Tomemos Xavier como exemplo: mesmo depois de sacaneado e usado pelas mulheres que conheceu, quando encontrou a fêmea que o entendia lutou por ela, mesmo quando tinha outra mais bonita em mente a seu alcance. Isso sim se chama amor, aquilo que nós corremos atrás e conquistamos com convicção e não o que é dado de presente, simplesmente.

Pois é, essas metáforas e diálogos da película me fizeram pensar. Não sobre o amor (psss, o amor...), mas sim sobre a imagem afetiva que transmitimos: esta camada carente. Uau, como é triste alguém se sentir inútil diante de outro alguém que não se parece conosco, tudo em nome da companhia, a não-solidão. Acho que a idéia de solidão é mal trabalhada, afinal, quem quer ficar sozinho é um pergunta que muitos respondem ‘eu!’ com um grande grito. O lugar escolhido por Xavier para contar sua história é no banheiro, o máximo de privacidade que alguém pode ter: isto não nos diz nada?

Assim como disse Xavier: “Quando estamos sozinhos desejamos alguém. Quando estamos acompanhados nos afundamos em perguntas se a vale a pena se entregar para aquele desconhecido.” Afinal o que queremos?!
- Poxa, sei lá meu....

É, vejo que o único momento de solidão espontânea e intimidade genuína que temos é sentado no vaso, apoiado nos joelhos.
Se quiser saber mais sobre o filme, assista o trailer e depois o próprio filme!
Trailer: o som tá um pouco atrasado, mas dá pra acompanhar.
P.S.: Há uma menção a Porto Alegre neste filme. Quando a personagem de Audrey Tautou(de O Fabuloso Destino de Amélie Poulan, um dos filmes favoritos de Mét Green) viaja para o Fórum Social Mundial, ela vêm a capital gaúcha e deixa o filho com Xavier. Ao voltar só fala coisas boas sobre o evento. O filme foi rodado em 2005, na época que o Fórum ainda acontecia em POA.

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