sábado, 17 de maio de 2008

Violet

Mais uma noite fria em Paris. Eu estava ficando sem cigarros. Tinha que sair desse apartamento, esticar as pernas e comprar um maço. Olho pela janela ao meu lado, nada, só chuva. Pego meu penúltimo cigarro de dentro do bolso e me atiro na pior poltrona em que já tive o desprazer de descansar.

Tiro do meu bolso o relógio de ouro que foi de meu pai e passo a contemplá-lo. Verifico a assinatura Aldebert atrás dele e tento polir ela novamente com o casaco, afinal ela baixa o valor do objeto e aumenta o meu mal estar. Mas não adianta ela continua no mesmo lugar.

Não sei se o mantenho por ser a única herança que meu pai me deixou, ou porque me dá uma espécie de status entre meus parceiros de farra. Mas prefiro acreditar que é só a lembrança de meu pai que me impede de aposta-lo em um jogo qualquer, do que encarar a realidade. A pobre realidade, se é que me entende. Não que ter dinheiro e luxos fosse o objetivo de minha vida, alias bem pelo contrario. A boêmia e a busca do prazer sempre foram os meus caminhos e deles eu nunca abriria mão. Até que a conheci, Violet.

Ah Violet, a mulher de minha vida! A vi numa vitrine, em uma rua movimentada da cidade, e resolvi checar mais de perto sua beleza. Ao me aproximar vi que sua beleza abalada pela tristeza, seu grande olho escuro ficou me encarando docemente, como me suplicando que a levasse daquele lugar. Mas eu nada podia fazer a não ser sussurrar desculpas e tocar minha mão no vidro que nos separava. E logo comecei a passar por aquela rua todos os dias, no mínimo três vezes por semana. Algumas vezes chegava a passar doze vezes, mas só quando acabavam meus cigarros. E o que era um desejo se tornou uma obsessão, eu só pensava nela, só falava nela e deixava de sair para os barzinhos para ficar do outro lado da rua sentado em um banco à observando. Um simples olhar se tornou uma paixão obsessiva.

A vozinha que vive em minha cabeça sussurrava maldosamente todo o tipo de comentário para me deprimir e me fazer desistir de tal empreitada. Dizia que ela era fina e elegante demais para mim. Que estava acostumada com todo o tipo de mimo e somente os mais ricos poderiam lhe oferecer tais tratos. Quem era eu além de um simples vagabundo que não tenho nem onde cair morto? E, finaliza com dureza, você sabe que não tem o direito de se apaixonar por tal anjo.

Virei motivo de piada para meus amigos, que se riam de meu amor por Viollet. Julgavam-me por louco, que a bebida finalmente tinha se tornado meu sangue e, portanto, eu estava sempre embriagado. Enquanto as ofensas eram só voltadas a mim nada fiz, afinal eu não tinha mais amor próprio, tudo era para o meu anjo de voz grave. Mas no momento em que um dos meus companheiros se atreveu a chamar minha amada de trambolho inútil me enfureci. Atirei-me em cima do infeliz e me pus a bater nele com todas as forças que eu tinha. Fui expulso do bar e chamado de louco tarado pelos clientes do bar, meu ex-amigo estava desacordado no chão banhando em sangue e perdi naquela noite os meus companheiros de patuscadas. Mas mantive a honra de Viollet e era só isso que interessava.

Minha obsessão aumentava cada vez mais e em uma noite de inverno visualizei o meu primeiro rival. Um homem de cartola, vestido com as roupas da moda, com um monóculo em seu olho esquerdo e uma barbicha que terminava em ponta, cuidadosamente escovada. A raiva fervilhou em meu interior quando ele pôs as mãos imundas dele e olhou lascivamente para meu anjo. Ele a manuseou como um objeto, tocando em todas as suas partes e a devolveu à vitrine. Vi seus lábios repugnantes dizer que talvez voltasse no dia seguinte para buscá-la, afinal foi a que mais agradou o seu gosto.

O homem-barbicha saiu da loja e começou a caminhar em direção ao centro e eu o segui. Já era tarde e como era inverno não tinha ninguém andando pelas ruas. Tirei o pequeno punhal que carregava sempre comigo e comecei a apertá-lo com força. Nunca pensei em me tornar em assassino, mas por Viollet eu desceria até o inferno.

Ele viu que eu o seguia e entrou em um beco. Erro dele, o beco era sem saída e enquanto ele me implorava misericórdia eu o preveni: fique longe de Viollet e pouparei sua vida. O Barbichinha disse que não conhecia nenhuma mulher com esse nome e o chutei no estômago, preveni-o mais uma vez: Não volte aquela loja, ou te matarei. Nunca mais vi aquela barbicha.

Outros surgiram, mas eu afugentava todos. Mas o tempo passava e me parecia que minha amada ficava cada vez mais solitária. Eu tinha que tirá-la de lá. Mesmo que isso custasse tudo que eu tinha.

Aí voltamos ao dia de hoje. Olho de novo pela janela, nada. O cigarro que eu estava fumando queimou no cinzeiro, mas eu já estou acendendo outro. Logo ele vai chegar e aí eu a terei. Passam meia hora, uma hora, duas horas, três horas e quando eu começo a achar que ele não virá ouço uma batida na porta. Ótimo, eu já estava sem cigarros. Abro a porta e um homem de proporções grandes entra em minha casa, de aspecto sujo e com uma barba rala ele pede para ver o relógio. Entrego o meu único bem valioso e ele o observa.

Ele me oferece dois mil francos. Eu preciso de dois mil e setecentos, então peço no mínimo três mil. Negociamos por mais algum tempo até que se chega ao preço de dois mil e oitocentos. Ótimo, saí lucrando. Despeço-me do vigarista e espero-o ter desaparecido da minha janela para sair correndo do meu apartamento em direção à loja.

A vozinha má fica a me dizer que alguém já a levou, e que agora outra pessoa já esta a desfrutar de seu amor e carinho, enquanto tinha acabado de perder tudo que eu tinha herdado de meu pai. O desespero estava me deixando louco, eu corria pelas ruas de Paris.

Parei em frente à loja e lá estava ela, me esperando como uma noiva espera seu amado. Meu coração se encheu de emoção, enfim a espera tinha terminado e não tinha sido em vão. Entrei pela primeira vez na loja e vi o vendedor que eu tinha visto tantas vezes fechar a loja durante a noite. Cumprimentei-o e ele pareceu meio apreensivo, talvez pela minha aparência tenha me tomado como um malandro qualquer e ficou com medo de roubo. Mas eu o acalmei, disse que vim pegar Viollet para mim e botei o dinheiro no balcão. Ele não ouviu direito, pois seus olhos estavam concentrados no dinheiro e me perguntou:

- Desculpe, pode repetir o que o senhor quer?

Impaciente como eu estava não queria ficar me explicando, falei que queria aquela beleza de voz grave na vitrine. Acenou a cabeça para mim e com um sorriso em seu rosto foi logo buscar Viollet para mim. Voltou com ela dentro de seu estojo de couro e me recomendou:

- Deixe ela sempre ao ar livre para que possa respirar melhor e não entorte, certo?

Concordei e entreguei o dinheiro para aquele homem que ainda sorria. Queria finalmente ficar a sós com minha noiva. Sentir seu braço firme e longo pronto a ser segurado com delicadeza pelo meu. Só de pensar em seu corpo, perfeitamente esculpido com a maestria do carpinteiro dos céus, pronta a ficar presa entre minhas pernas enquanto eu a toco bem devagar, ouvindo cada sussurro que ela me oferece. E seu cheiro! Cheiro de Mogno, cheiro de terra! Que combina perfeitamente com sua tez dourada como o mel. Ah! Viollet você finalmente é minha!

Tiro o meu guarda-chuva de dentro do meu casaco e protejo minha amada da chuva, agora torrencial, enquanto esperamos um coche passar. E sorrio como nunca.

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Dentro da loja o pequeno vendedor coça sua barba e sorri observando o estranho homem que acabará de levar o violoncelo da vitrine. Sua mulher desce as escadas da loja de música, segue os olhos do marido e pergunta chocada:

-Mas que diabos aquele homem está fazendo?! Está se molhando para proteger o Violoncelo? Por que ele está beijando a caixa?

Ainda sorrindo o vendedor diz:

-O amor não conhece fronteiras.

Um comentário:

Anônimo disse...

adorei o blog d vcs ;D

vou add lá no nosso ;*