terça-feira, 1 de julho de 2008

UMA CONSTELAÇÃO NO HARLEM


Era verdade, realmente iria acontecer! Enquanto os contatos eram feitos para que tudo desse certo, os curiosos custavam a acreditar: os maiores jazzistas dos anos 40 e 50 ainda vivos numa única foto! Seria possível? Sim.

O Harlem, o berço do jazz e o maior bairro negro em Nova York, seria o lugar ideal, até porque muitos dos músicos moravam nesse bairro e dificilmente sairiam dele somente para uma fotografia. O ano de 1958 era, ao mesmo tempo, tarde e cedo para se encontrar alguns gênios já consagrados e outros ainda por serem ouvidos: Charlie Parker e Fats Waller já haviam deixado a vida para entrar na história; Thelonious Monk e Dizzy Gillespie eram referências no jazz desde o final dos anos 40 e continuavam no mesmo ritmo, enquanto Chet Baker, apesar do sucesso, ainda tinha muito que aprender.

Eu tinha 9 anos na época e era apaixonado pela música que ouvia nos rádios e nas calçadas, o som das big bands nos clubes em que entrava escondido, os amigos de meu pai que tocavam na famosa Rua 52. É complicado descrever a sensação de uma reunião de duas gerações de músicos na minha rua, os homens que inventaram o som que nunca parei de escutar estão em frente ao meu prédio!

Aos poucos eles foram chegando, alguns carregando seus instrumentos, outros apenas com as mãos ocupadas por cigarros e fósforos. Eram dez e meia da manhã e a maioria deles nem havia dormido desde a noitada do dia anterior: saíram direto dos seus clubes favoritos até aqui. Mas não é qualquer um que convenceria Coleman Hawkins e Charles Mingus a trocar uma boa manhã de sono para tal: se não fosse Herman Leonard, fotógrafo bastante conhecido no meio musical, duvido que alguém viria. O assunto das muitas conversas que surgiam entre eles entretinha aos meus amigos e eu mais do que as brincadeiras com o hidrante jorrando água. O que será que estariam conversando: discutindo uma nova composição, contando piadas, o que?

Todos começaram a se posicionar na escadaria do prédio por volta do meio dia, quando a luz do sol era mais intensa. Lembro-me bem que alguns discutiram por causa de seus lugares, queriam mais visibilidade na foto que entraria para os anais do jazz, mas Herman foi implacável: ditou o lugar de cada um e não houve quem reclamasse do seu depois disso.

Eu queria tanto participar também, ficar imortalizado por um segundo. Ouvi dizer que índios não gostam de tirar fotos porque acham que perderão suas almas ao terem seus rostos fotografados: eu acho isso uma grande besteira. Até pensaria na possibilidade de vender minha alma só para estar nessa fotografia, mas quem sou eu? Só um garoto da vizinhança...

Neste instante Herman achou que estava tudo muito formal, muitos ternos bem abotoados e sorrisos ensaiados, afinal, todos queriam sair bem. Ele pediu em voz alta para que todos se soltassem, abrissem alguns botões do paletó e relaxassem. E foi aí que meu momento apareceu: ele olhou para o outro lado da calçada, onde meus amigos e eu nos misturávamos à multidão curiosa, e pediu que as crianças viessem se sentar no meio fio. Lembro que saí correndo e me sentei. Até algumas crianças estranhas na vizinhança fizeram o mesmo. Nós apareceríamos! Estávamos tão nervosos que mal conseguíamos sorrir!

Herman abriu o tripé, apoiou sua máquina fotográfica nele, ajeitou as lentes e num flash registrou aquele instante sublime. Herman ainda tirou algumas outras fotos naquele dia, mas nenhuma se comparava com aquela reunião de estrelas do jazz. Hoje posso dizer com orgulho: uma constelação se reuniu no Harlem e eu estava lá.

Um comentário:

Anônimo disse...

Art Davis é o cara!
Que texto!
Já tinha te dito isso, né? Adorei "Uma Constelação no Harlem"!

Beijos!